terça-feira, 12 de julho de 2016

Eu comigo

Qual é o nosso dever?

O Espírito Lázaro, aquele que Jesus foi buscar nas catacumbas, nos esclarece: é o cuidado com nós mesmos. É a obrigação que temos, primeiro, com nós mesmos e, depois, com os outros. Quem cumpre o seu próprio dever ama a Deus mais que as criaturas e ama as criaturas mais que a si mesmo.

Pequenos ou grandes, ignorantes ou instruídos, sofremos todos pelos mesmos motivos, a fim de que cada um de nós possa pesar com justiça, sem sombra de dúvida, o mal que pode fazer. Já para o bem, não existe o mesmo critério: o bem é infinitamente mais variado nas suas expressões. Daí que o dever nasce dessa consciência do Bem e do Mal.

E como o dever se refere ao cuidado com nós mesmos, ele termina no limite que não desejaríamos ver transposto em relação a nós mesmos. Quanto seu ponto de partida, é precisamente o ponto em que ameaçamos a felicidade ou a tranquilidade do nosso próximo. Resumindo: não faça ao outro o que não quer para si e, deste modo, estará cumprindo o seu dever!

Esta obrigação íntima, que a Doutrina dos Espíritos chama de dever, implica autoconhecimento para investimento no melhor em nós. Só sabendo quem somos identificaremos nossos prós e contras. E, a partir daí, poderemos compartilhar nosso amor mais puro, mais genuíno, mais generoso, e combater tudo o que nos prejudica, como o egoísmo, o orgulho em exagero, a fraqueza de caráter etc. Cada um sabe de si.

O dever nasce da razão, como o filho nasce da mãe. O dever é o resumo prático de todas as especulações morais. O dever nos preserva dos males da vida, é a coragem da nossa alma, pois transmite à alma o vigor necessário para o seu desenvolvimento. Mas temos de estar bem vivos, atentos. Não existe ninguém fiscalizando, avaliando, nossas atitudes.

Diferente do dever social, profissional, familiar, muitas vezes imposto e reconhecido quando bem cumprido ou cobrado, quando descumprido, o dever moral, a obrigação íntima, é invisível ao olhar dos outros.

Quando resistimos às tentações, às paixões que podem comprometer nossa história, não acontece queima de fogos de artifício nem recebemos troféu por termos sido fortes. Nossas derrotas também não sofrem repressão ou crítica. Somos, a um só tempo, juízes e escravos na nossa própria causa.

Na contramão das paixões, de tudo que seduz, o dever é talvez o maior desafio que vivenciamos, exatamente porque ele está em ligação direta com o nosso livre arbítrio, com a nossa liberdade de escolha, e com a nossa consciência. Na nossa vida não existe o não escolher. Cada segundinho da vida que vivemos é feito de escolhas, todas sob a nossa responsabilidade.

Nós escolhemos ficar na frente da TV assistindo a um filme, no computador jogando ou lendo um bom libro; se vamos transformar nossas aflições em aprendizado ou fingir que nada está acontecendo. Nós escolhemos se vamos refletir ou não sobre a nossa vida. Nós escolhemos se vamos aproveitar as oportunidades que temos de autoconhecimento, os sentimentos que vamos alimentar, os pensamentos que vão ocupar a nossa mente. Nós escolhemos os momentos de falar, calar, julgar, dar as costas... Nós escolhemos!!!

É verdade que, muitas vezes, escolhemos sem ter consciência de que estamos escolhendo. Mas até isso é uma escolha. Pois ao nos deixar levar pelas paixões, pelas seduções do mundo, abrimos espaço para estar na vida no automático, desconectados do divino em nós.

Nossa consciência nos adverte, chama nossa atenção para o que estamos fazendo de errado, para os nossos enganos, para as nossas distrações. Nossa consciência atua como guardiã de nosso viver, de nosso bem viver, de nosso viver para o bem, mas identificar seus alertas também é opção nossa.

Resultado de imagem para o deverConheço uma história que fala de um pequeno empresário que tendo de se ausentar por um longo tempo para expandir seus negócios, pediu ao filho que assumisse um compromisso seu, que era levantar uma casa grande e bela, com os melhores materiais. Ele não disse para quem era a casa, mas confessou a seu filho que era uma questão de honra construí-la. O filho aceitou assumir o compromisso do pai, sem fazer perguntas. O pai, por sua vez, depositou uma quantia em dinheiro na conta do filho de modo a garantir a empreitada.

Ao ver seu extrato bancário, o filho teve o que considerou uma grande ideia: economizar o dinheiro do pai em proveito próprio. Assim, escolheu profissionais de segunda, materiais de segunda e passou a gastar o dinheiro com os próprios prazeres.
 
Ao retornar de viagem, o empresário surpreendeu-se ao encontrar o filho doente e a casa que pediu para construir caindo aos pedaços. Mesmo assim, cumpriu seu compromisso, entregando ao filho a escritura da propriedade, dizendo: “A casa que eu pedi para você construir era para você mesmo, meu filho ... Não é a residência que sonhei, mas devo estar satisfeito com a que você próprio escolheu”.

Que esta história no sirva para reflexão sobre nossos atos, escolhas, sobre como estamos cumprindo o dever com nós mesmos nesta vida.

Fonte: O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XVII, item 7, O Dever


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