A maioria de nós insiste em responder “não” a esta pergunta que nos é feita, com insistência, todo o tempo, a vida inteira. Se quisermos pensar na primeira vez que ouvimos, explicitamente, este convite “Quer casar comigo?”, lembremos a Parábola das Bodas, a Festa de Núpcias, contada no Evangelho de Mateus (22:1-4).
A parábola conta a história de um rei que queria dar a maior festa de núpcias de todos os tempos, queria celebrar a união por amor. Para isso, ele enviou seus servos para que convidassem todas as pessoas que, de algum modo, já frequentavam seu palácio. Para espanto do rei, no entanto, todos os convidados, com desculpas esfarrapadas, recusaram o convite, muitos, inclusive, foram rudes, violentos com os emissários. Mas o rei não desistiu de celebrar a união por amor com uma grande festa. Queria o palácio lotado para que as pessoas sentissem a força do amor e determinou que todos da cidade fossem convidados, independentemente de serem boas ou más. Assim, no dia da grande festa, o palácio ficou lotado. Mas nem todos cuidaram de se trajar como se deve para uma festa de casamento. E o rei, zangado, mandou expulsar a pessoa que não estava vestida de maneira adequada, dizendo, inclusive, que ela deveria responsabilizar-se por sua inadequação, por não ter-se preparado para a celebração do amor.
Esta parábola mostra nossa relação com Deus – Ele é o rei e seu filho, que veio celebrar o amor, é Jesus. A humanidade são os convidados, somos nós nas nossas diferentes relações com o divino – muitos O louvamos, outros tantos lembramos d’Ele na hora das petições, outros tantos negamos Sua existência, outros ainda têm fé da boca para fora, outros usam seu nome em vão... Os emissários, que foram fazer os convites, são os profetas e os missionários que pagaram com a vida por convidar as pessoas para a grande festa da celebração do amor, a festa de núpcias, de casamento.
De acordo com a parábola, todos foram chamados, mas mesmo entre os que aceitaram o convite, alguns vieram apenas por curiosidade, sem se preocupar com a veste nupcial.
Nós sempre somos convocados ao testemunho do amor, do bem, da vida, seja por meio de convites para festas de casamento, de batismo, de aniversário; seja por meio da filosofia, da ciência, da literatura, da música, das religiões, dos desafios do dia a dia, da misericórdia divina que nos permite viver momentos felizes. Nós sempre somos convocados ao testemunho do amor.
Recebemos revelações divinas todo o tempo, com o nascimento de um bebê, com a cura de uma doença, a descoberta de um novo planeta, com a produção de alimentos, os avanços tecnológicos... Somos, todo o tempo, estimulados a trabalhar virtudes, a caridade, os bons sentimentos em nós, a inteligência, a sabedoria, todos já registrados de viva voz pelo próprio Jesus.
Somos estimulados todo o tempo a nos comportarmos com ética, mas apegados à matéria, ao supérfluo, aos valores transitórios e prazeres imediatos, recusamos, dia a dia, o convite para amarmos muito e sempre. Assim, deixamos de cuidar da veste nupcial, da “roupa adequada” para celebrarmos o amor.
Todos nascemos com a veste adequada para celebrarmos o amor, que é o coração puro. Mas, criados simples e ignorantes, fomos vivendo e escolhendo alimentar em nós sentimentos que maculam, “sujam” nosso coração, nossa veste nupcial.
Paixão, ciúme, vaidade, discórdia, revolta, avareza, apego, raiva, posse, desejo de vingança são exemplos de sentimentos que “sujam” nosso coração, nossa veste nupcial.
Autoconhecimento
Para cada um de nós limpar o coração, entretanto, antes, temos que saber quais são as nossas “sujeirinhas”, os sentimentos que têm comprometido nossa pureza de viver.
E assim, mais uma vez, Jesus nos fala da importância do autoconhecimento, da importância de sabermos quem somos, o que e como sentimos.
Hoje em dia, as empresas, para melhor se posicionarem no mercado, costumam utilizar uma estratégia, na qual analisam seus pontos fortes, seus pontos fracos, as ameaças da concorrência e do próprio negócio, bem como as potencialidades, de modo a planejar um futuro que lhes garanta sucesso.
Façamos isso com as nossas vidas, identificando nossos pontos fortes, como as virtudes que já conquistamos; nossos pontos fracos, como nossos enganos, vacilos e invigilância; nossas ameaças, que podem ser identificadas pelo nosso grau de orgulho e egoísmo; e nossas oportunidades reais de crescimento nesta encarnação, como a disposição de nos modificarmos, de nos autoconhecermos, de entrarmos em contato com o amor em nós. Assim, pouco a pouco, vamos nos libertando do sofrimento e da dor, substituindo vícios e imperfeições por leveza, paz interior...
Fica subentendido nesta parábola que nem sempre nos preparamos para vivenciar os ensinamentos de Jesus. Mesmo quando buscamos Deus, o rei, por meio da prece, de promessas, novenas, doações ou de assistências espirituais, queremos o milagre, a bênção de mão única, esquecendo nossa condição de responsáveis por todos os atos da nossa vida. Ao buscarmos Deus, queremos que, em um passe de mágica, Ele solucione os nossos ais.
Mas só a verdade é libertadora, verdade sobre nós mesmos. Daí a importância de nos perguntarmos sobre a nossa responsabilidade por tudo que nos acontece. Só sabendo quem somos teremos condições de promover mudanças na nossa maneira de estar na vida. Só tendo clareza do nível do nosso apego material, da nossa disposição em ser caridoso ou não, da nossa capacidade de amar ou não, teremos condições de elaborar um plano de crescimento íntimo.
Vale refletirmos sobre a utilidade ou inutilidade de cada um dos sentimentos que guardamos no peito. De que nos vale a impaciência, a arrogância, a falta de tolerância, a incompreensão, o julgamento dos outros, a raiva?... Quais sentimentos são como véus que nos impedem de ver a verdade sobre nós, sobre a nossa vida? Quais sentimentos endurecem a nossa alma?
Deus é sempre misericordioso. Nós é que nem sempre estamos preparados para perceber e desfrutar de sua misericórdia. Costumamos dizer que Deus escreve certo por linhas tortas. Mas não. Deus escreve certo por linhas certas. Nós é que não sabemos ler. Daí não usarmos a roupa adequada ao irmos a uma festa de casamento! Daí a nossa imprevidência. Daí o nosso atraso espiritual.
A veste de núpcias simboliza o amor, a humildade, a boa vontade em encontrar a verdade para observá-la, ou seja, a pureza das intenções.
As conquistas morais são para sempre. Nos acompanham a cada reencarnação, nos fortalecendo para novos aprimoramentos e para entrar em contato com o amor genuíno.